sábado, julho 23, 2005

Obrigado Ernesto Melo Antunes



“Coroem de loiros

os que os não merecem.

A esses, tão pobres

que os loiros os contentam

e enriquecem, dêem

a pobreza dos loiros”

Sebastião da Gama

Tentarei ser tão imparcial e objectivo quanto o sentimento de gratidão a Melo Antunes mo permitir.

Eu, jovem de 25 anos, natural de Castelo Branco, que goza, como qualquer outro português, do direito de exprimir livremente, de eleger os seus representantes políticos e de ser eleito para cargos públicos, quero agradecer e prestar homenagem publicamente ao tenente-coronel Ernesto Melo Antunes, um dos homens que mais contribuíram para que hoje haja liberdade e Democracia em Portugal. “O que deve a democracia a Ernesto Melo Antunes? Tudo o que se disse mais uma coisa: o exemplo de ‘civilização da ‘tropa’ que durante séculos se habituara a mandar no país. E o silêncio discreto com que regressou a casa, quando os quartéis voltaram a ser apenas aquilo que deviam ser”, António Mega Ferreira, “Público”, 16/08/99.

Foi um dos principais autores do documento do MFA saído da reunião em Cascais a 5 de Março de 1974, “O movimento, as forças armadas e a Nação”. Membro da Comissão Coordenadora do MFA e ministro dos Governos Provisórios, nomeadamente Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Membro do Conselho da Revolução. Presidente da I Comissão Constitucional. Membro do Conselho de Estado.

Um dos principais responsáveis pela condução da descolonização, que levará à renúncia de Spínola à Presidência da República após o 28 de Setembro de 1974, “A questão fundamental do exercício à autodeterminação e independência dos povos colonizados era uma questão de honra para o novo regime”, E. Melo Antunes.

“Convém recordar que antes do 25 de Abril ninguém se oferecia para o que era necessário fazer: encetar as negociações com os movimentos nacionalistas das colónias. Dessa responsabilidade prática todos os grandes nomes da ditadura fugiram. Por consequência, teve a Revolução que enfrentar a questão colonial e Melo Antunes chamou a si os casos mais difíceis.”, José Medeiros Ferreira, “Diário de Notícias”, 17/08/99.

Sobre Angola diz E. Melo Antunes: “A noção que eu tinha era que o jogo (em Angola) nos ultrapassava completamente. A África do Sul entra pelo Sul e o conflito angolano internacionaliza-se. O MPLA logo a seguir, pediu apoio militar a Cuba, e o MPLA, sem o apoio de Cuba não teria podido controlar o avanço da UNITA. (…) Os americanos apoiaram claramente a FNLA e o Zaire, na tentativa de tomada do poder em Luanda”.

E. Melo Antunes coordenou o programa da política económica e social, que dará origem ao 11 de Março de 1975.

Foi um dos autores do “Documento dos Nove”, de 6 de Agosto de 1975, que resultará no 25 de Novembro de 1975 e na normalização democrática. Sobre as primeiras eleições legislativas democráticas pós-28 de Maio de 1926, dirá: “O PS apresentava-se como um partido de mudança, de corte com o passado e como um partido claramente de esquerda, mas não representava as ameaças do PCP. A população era conservadora, como é hoje.”

Adere ao PS em 1981.

É Subdirector-Geral da UNESCO em 1986.

“Melo Antunes, porém, não convertia este protagonismo em poder pessoal. Dispensava o aplauso fácil da multidão. Recusava a política espectáculo. Era um sentimental.”, Luís Salgado de Matos, “Público”, 16/08/99.

"A morte (física) de Melo Antunes aos 65 anos (completaria 66 a 2 de Outubro) no dia 11 de Agosto de 1999 em Sintra, vítima de cancro no pulmão, eclipsou (pelo menos para aqueles que celebram anualmente o 25 de Abril de 1974 e se emocionam ao som da “Grândola, Vila Morena”) o tão mediático quanto frustrante (para quem o observou em Portugal) eclipse do Sol. Digo morte (física), porque o seu exemplo, a sua memória ficam, como fica a utopia daquele que “(não) estava disposto a trocar a sua utopia por honras efémeras”, António Ribeiro Ferreira, em editorial do “Diário de Notícias”, de 12/08/99.

A morte deste Capitão de Abril, ideólogo do 25 de Abril/do MFA, “Pai do 25 de Abril” (nas palavras do ex-Presidente da República, A. Ramalho Eanes), nome indissociável da Revolução dos Cravos, deixa mais pobre Portugal, mais pobre a Democracia Portuguesa, perdendo-se consciência crítica e a Democracia precisava dela como o Homem de ar para viver.

Deixa-nos um homem que se bateu por belos ideais: Democracia, Liberdade e Socialismo, e que teve a coragem de dar um passo que muitos não deram ou não puderam dar para derrubar a Ditadura, o Estado Novo de Salazar e de Marcelo Caetano.

Eu que, enquanto criança de 8 meses, não pude contribuir para a queda do Estado Novo, agradeço a este homem e a todos os Capitães de Abril, por tornarem um sonho (que comanda a vida) da Democracia realidade, por muitas críticas que faça à sua aplicação prática, porque eu quero sempre mais e melhor Democracia (por isso defendi e defendo a Regionalização).

No que respeita à passagem da teoria à prática, diz Manuela Cruzeiro sobre a acção de E. Melo Antunes: “Tentou salvar o que era salvável da ideia socialista, sem nunca se convencer que as coisas tenham que ser o que são (…) homem de profundas convicções de esquerda, muito antes do 25 de Abril, coube-lhe o papel ingrato de controlador do sonho; obrigado a confrontar os seus ideais com a realidade concreta, foi incansável na procura de uma via política original no nosso país para o socialismo, que não fosse a transposição mecânica de modelos político-sociais conhecidos.”

A meu ver Portugal não faria nada demais se declarasse luto nacional pela sua morte, tal como o deveria e deverá fazer à morte de todos e cada um dos Capitães de Abril, outros países o fizeram ainda recentemente para homenagear figuras menos importantes para a sua História.

A grandeza dum país também se vê pela forma como se presta homenagem aos seus (verdadeiros) heróis, Salgueiro Maia (o Capitão de Abril) e Aristides de Sousa Mendes (o cônsul português em Bordéus) são alguns dos heróis portugueses maltratados, espero que a memória de Melo Antunes não o seja também, aliás pelas mesmas razões que o foi Salgueiro Maia: “Enquanto Vasco Gonçalves aparecia associado ao PCP e Otelo à extrema-esquerda, o meu nome não estava associado ao PS. Defendia teoricamente e levava à prática a autonomia do MFA, em relação aos partidos”, E. Melo Antunes. E muitos não lho perdoaram como o não fizeram também em relação a Salgueiro Maia.

Não posso, como Jorge Sampaio, agradecer-lhe em nome de todos os portugueses, limito-me a fazê-lo em meu nome pessoal, ousaria talvez fazê-lo em nome dos jovens portugueses, a quem ele e outros portadores da Utopia permitiram ter um futuro mais luminoso e menos “pidesco” e beato, futuro esse depositário de uma esperança incomensurável.

Obrigado Melo Antunes. Até sempre.

Luís Norberto Lourenço

· Artigo de opinião publicado na revista “Raia”, n.º 15, de Setembro de 1999.

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